{"id":46,"date":"2018-07-02T12:42:51","date_gmt":"2018-07-02T15:42:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbq.org.br\/divisao_produtos\/2018\/07\/02\/mais-cortes-no-orcamento-e-o-alto-preco-de-sacrificar-o-futuro\/"},"modified":"2024-08-13T17:22:34","modified_gmt":"2024-08-13T20:22:34","slug":"mais-cortes-no-orcamento-e-o-alto-preco-de-sacrificar-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbq.org.br\/produtos\/mais-cortes-no-orcamento-e-o-alto-preco-de-sacrificar-o-futuro\/","title":{"rendered":"Mais cortes no or\u00e7amento e o alto pre\u00e7o de sacrificar o futuro"},"content":{"rendered":"<p>V\u00e1rias \u00e1reas de atividade na sociedade brasileira preparam-se agora para conviver com novos cortes nos recursos do or\u00e7amento do governo federal, definidos nas medidas provis\u00f3rias enviadas nestes \u00faltimos dias ao Congresso. Agricultura, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, ci\u00eancia e tecnologia, s\u00e3o algumas delas. Desta vez, a decis\u00e3o \u00e9 explicada pela necessidade de compensar a redu\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o dos combust\u00edveis, em raz\u00e3o da greve dos caminhoneiros. Mais uma vez, \u00e1reas de impacto social e estrat\u00e9gicas est\u00e3o sendo negligenciadas pela atual gest\u00e3o.<\/p>\n<p>Imersos nas tarefas do dia a dia, vamos assistindo esse espantoso processo de deteriora\u00e7\u00e3o das estruturas que devem sustentar o avan\u00e7o social, processo para o qual, aparentemente, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. Um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o poderia nos levar a pensar como ser\u00e3o avaliados, daqui a dez anos, o momento e as circunst\u00e2ncias que estamos vivendo hoje.<\/p>\n<p>Cabem nesse exerc\u00edcio tamb\u00e9m algumas perguntas sobre o passado. Uma delas: o que impediu o pa\u00eds, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, de fazer um esfor\u00e7o maior atrav\u00e9s de investimentos e pesquisas para obter melhores resultados econ\u00f4micos apoiados em tecnologia e inova\u00e7\u00e3o? O caso mais gritante parece ser o do setor de f\u00e1rmacos e medicamentos com sua conta crescente de importa\u00e7\u00f5es para atender as demandas do sistema de sa\u00fade. Quanto teria sido necess\u00e1rio investir em P&amp;D para que parte desses produtos fossem fabricados no pa\u00eds, com tecnologia local? Os exemplos s\u00e3o in\u00fameros e, a prop\u00f3sito do movimento que levou transportadores a parar o Brasil: segundo maior produtor de biodiesel no mundo, atr\u00e1s dos EUA, o Brasil obt\u00e9m esse combust\u00edvel, que contribui para reduzir a emiss\u00e3o de CO2 na atmosfera, principalmente da soja. Sabe-se, no entanto, que existem v\u00e1rias outras fontes potenciais na biodiversidade brasileira para produ\u00e7\u00e3o de biodiesel. Como descobrir se elas podem resultar em produtos mais baratos que os atuais sem investimentos em pesquisa de ponta?<\/p>\n<p>No campo dos alimentos, a \u201cfa\u00e7anha\u201d de obter mais das mesmas mat\u00e9rias-primas, no mesmo local, vem sendo praticada h\u00e1 bastante tempo. Mas h\u00e1 um grande n\u00famero de possibilidades a serem investigadas e exploradas, muitas em fase avan\u00e7ada de pesquisa, outras buscando articula\u00e7\u00e3o comercial. Dezenas de esp\u00e9cies frut\u00edferas nativas exibem caracter\u00edsticas \u00fanicas de sabor e aroma com potencial para se transformarem em novos produtos aos quais a tecnologia pode agregar valor, inclusive para o mercado internacional. Uma grande quantidade de esp\u00e9cies vegetais sob estudo, dos diferentes biomas, apresenta componentes bioativos (antioxidantes, antitumorais, anti-inflamat\u00f3rios, antif\u00fangicos, por exemplo) que merecem ser alvo de investimentos pela ind\u00fastria em busca de inova\u00e7\u00f5es com \u201cDNA\u201d brasileiro. Uma porta poss\u00edvel para ingressar no ambicionado mercado mundial de alimentos funcionais, cosm\u00e9ticos e medicamentos.<\/p>\n<p>Os exemplos v\u00eam do mundo real. Um dos mais recentes medicamentos contra diabetes tipo II, aprovado pelo FDA em 2004, e lan\u00e7ado comercialmente em 2005, tem sua mol\u00e9cula ativa inspirada em um pept\u00eddeo natural, a exendina-4, isolada do veneno do lagarto Monstro-de-Gila (<em>Heloderma suspectum), <\/em>que vive nos EUA e M\u00e9xico. Quantos pept\u00eddeos naturais, modelos de f\u00e1rmacos inovadores podem estar escondidos nas in\u00fameras esp\u00e9cies de plantas e animais (incluindo lagartos) de nossa biodiversidade terrestre, aqu\u00e1tica e marinha?<\/p>\n<p>\u00c9 instigante pensar o que fariam coreanos e japoneses com uma costa mar\u00edtima de 7.500 quil\u00f4metros de extens\u00e3o e uma das maiores bacias hidrogr\u00e1ficas do mundo. \u00c1reas onde habitam milhares de esp\u00e9cies, grande parte desconhecida. Quantas esp\u00e9cies de peixes, tratados com o devido manejo e t\u00e9cnicas de preserva\u00e7\u00e3o, poderiam ampliar a oferta de alimentos ou, mesmo, serem inclu\u00eddos como novos itens na pauta da exporta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Como se pode ver, a expectativa de explorar essas possibilidades n\u00e3o deveria ser um desejo restrito \u00e0 comunidade de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, que hoje v\u00ea seus projetos de pesquisa interrompidos e alguns de seus jovens talentos fazendo as malas em busca de oportunidades no exterior. Trata-se de um \u201csonho\u201d perfeitamente realiz\u00e1vel que poderia ser encampado por toda a sociedade em benef\u00edcio do pa\u00eds e cheio de oportunidades para nossos descendentes. Os recursos que v\u00eam sendo continuamente retirados da CAPES, CNPq e FINEP representam um pre\u00e7o alt\u00edssimo que o pa\u00eds est\u00e1 pagando, em detrimento de seu futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Vanderlan da Silva Bolzani, Professora Titular do IQAr-UNESP, <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Vice-Presidente da SBPC e da ACIESP <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>(<a href=\"mailto:bolzaniv@gmail.com\">bolzaniv@gmail.com<\/a>)<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00e1rias \u00e1reas de atividade na sociedade brasileira preparam-se agora para conviver com novos cortes nos recursos do or\u00e7amento do governo federal, definidos nas medidas provis\u00f3rias enviadas nestes \u00faltimos dias ao Congresso. Agricultura, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, ci\u00eancia e tecnologia, s\u00e3o algumas delas. 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